domingo, 21 de agosto de 2011

Você se parece com a minha avó?



Meus amigos que se reúnem comigo para ler poesia resolveram que, nesse Natal, só iremos dar brinquedos e só queremos receber brinquedos. E isso por uma razão teológica.

Todos aprendemos no catecismo que no Natal acontece o mistério da encarnação: Deus, aquele que enche o universo, resolveu que o melhor mesmo era tornar-se criança. E isso para a salvação dos homens. Jesus nasceu para nos salvar.

Salvar do quê? Aqui começam as discordâncias. Porque a teologia ortodoxa diz que ele nasceu para nos salvar do Inferno. Mas você acredita mesmo que Deus é um torturador que mantém seus desafetos numa câmara de torturas, por toda a eternidade? E ainda por cima que ele vê e se alegra com o sofrimento dos infelizes, como dizia Santo Tomás de Aquino? Você poderia amar um Deus assim cruel? Quem assim se alegra com o sofrimentos dos homens não pode ser um Deus de amor. Só pode ser o Diabo.

Salvar de quê? Responde a Adélia Prado: ‘Meu Deus, me dá cinco anos, me cura de ser grande!’ Perdição é ter ficado grande. Quem ficou grande perdeu o rumo, está na direção errada, cada vez mais longe... Pois no Natal Deus mostra onde está a salvação: é preciso voltar a ser criança. As crianças não precisam do Natal porque elas já são crianças. Somos nós, adultos, que precisamos ser salvos. O Natal é para nós, para nos lembrarmos da felicidade perdida. E não existe remédio mais poderoso para transformar os grandes em crianças que um brinquedo.

Já contei que minha mãe era pianista. Ela me ensinou o gosto pela música erudita. Mas não só. Chegou a fazer parte de uma banda que tinha o nome de ‘Os Tangarás’. Tangará é um pássaro que nunca vi. O Aurélio me diz que ele tem também um outro nome: Pássaro Dançador. O Tangará dança enquanto canta. A tal banda ‘Os Tangarás’ existia para animar festas dançantes. Acho tão estranho isso, pensar minha mãe que tocava baladas de Chopin tocando maxixes e chorinhos...

Mas eu me esqueci de contar uma outra coisa sobre a minha mãe: ela brincava comigo. Mais precisamente: fazia brinquedos para mim. Fazer brinquedos para os filhos: arte perdida! Fico a pensar em quem lhe teria ensinado a arte. De uma coisa estou certo: não foi a minha avó. Minha avó não gostava de crianças, o que era o normal, naqueles tempos. Cora Coralina confirma: ‘Criança, no meu tempo de criança,/ não valia mesmo nada./ A gente grande da casa/ usava e abusava/ de pretensos direitos de educação./ Por dá-cá-aquela-palha,/ ralhos e beliscões./ Aquela gente antiga,/ passadiça, era assim: severa, ralhadeira./ Não poupava as crianças...’

Minha avó tinha vocação de cientista, estudava astronomia, espiava as estrelas com luneta. Acho que passou a vida amargurada por ter sido obrigada a casar com um homem que não era nem bonito e nem entendia de astronomia. Nunca me pegou no colo. Nunca me beijou. Nunca me contou uma estória. Gostava de me apertar o braço com força, prá machucar. Assim, não posso imaginar minha avó ensinando minha mãe a fazer brinquedos. Toda criança era ‘gata borralheira’: que tinha de ficar sob o cuidado das pretas cozinheiras, longe dos adultos, muito importantes.

No sobrado continuaram a viver duas escravas: livres, não tinham para onde ir. A Dulce, velha de olhos vermelhos, já estava remando canoa para a ‘terceira margem do rio’: passava o dia rezando terço com um beiço dependurado, numa língua que minha mãe não entendia. Mas a Iaiá gostava da minha mãe. Brincava com ela. Contava estórias que minha mãe depois me contou. Estórias de Angola. Acho que foi ela que ensinou minha mãe a fazer brinquedos.

Minha mãe fazia petecas, obras de arte. E sabem com o quê? Pois pasmem. Com palha de milho. O milho, mesmo depois de debulhado, tinha mil serventias. Podia queimar no fogão de lenha. Dá um fogaréu bonito que apaga logo, se for deixado só. Como certas pessoas, o milho precisa de um fogo de fora para queimar. Daí a expressão ‘fogo-de-palha’: entusiasmos ardentes - especialmente os amorosos - que são de curta duração. Os sabugos, os meninos brincavam com eles. Viravam boizinhos que puxavam carrinhos. Cada sabugo tinha um nome. As palhas de dentro eram alisadas pelos homens com o canivete e usadas para fazer cigarros de fumo de rolo. Mas houve alguém, artista desconhecido, que olhou para as palhas do milho e viu petecas. Era feitas assim. Primeiro se pegava um cavaco, no monte de lenha cortada, que fosse quadradinho. Depois se envolvia o dito cavaco com várias folhas de palha de milho, apertadas, formando uma almofadinha. A seguir, mais palhas iam sendo colocadas sobre essa almofadinha, sem enrolar, deixando as pontas soltas para cima, como se fossem um pescoço. O pescoço, bem amarrado e aparado, a peteca estava quase pronta. Faltavam as penas que a gente procurava no galinheiro. Se não houvesse penas soltas, pobres galinhas: a gente arrancava as de que se precisava. São as penas que garantem que a peteca vá cair do jeito certo. Enfiavam-se as penas na ponta do pescoço aparado - e eis uma peteca! É uma arte perdida. Encontrei uma, numa loja de artesanato em Florianópolis, que comprei. Não é tão perfeita como aquelas que minha mãe fazia. Olho para a peteca, me lembro da minha mãe.

Ela fazia também corrupios. Um corrupio se faz assim. Procura-se um botão bem grande, que tenha pelo menos dois furos. Várias vezes roubei botões dos paletós do meu pai. Ele nunca reclamou ou nunca percebeu. Era distraído, não se importava com um paletó sem botão. Imagino que os netos do senador Sarney, em virtude do seu hábito de usar jaquetões, têm a grande felicidade de dispor de muitos botões a serem roubados. Ele nunca vai notar. O fato, entretanto, é que as crianças de hoje não são como as de antigamente. Não se entusiasmam com botões de paletó. Mas, voltando ao corrupio. Toma-se o botão. Passa-se um fio de barbante de 40 centímetros por um dos furos e outro igual pelo outro. O botão fica no meio. Dão-se nós nas pontas dos barbantes. Aí, segurando as pontas dos barbantes amarrados, a gente gira os barbantes no mesmo movimento de ‘pular corda’. Os barbantes ficam enrolados. Aí a gente puxa firme os barbantes, no sentido do exterior. Os barbantes desenrolam e o botão gira. Gira tão rápido que chega a zunir. O ar, passando pelos furos, assobia. É terapêutico brincar com corrupio.

Me ensinou também a fazer chapéus de Napoleão e barquinhos com dobraduras de papel. Chapéu de Napoleão na cabeça e um pedaço de bambu na mão: eis um guerreiro! Barquinho de papel na enxurrada: eis o Soldadinho de Chumbo de uma perna só apaixonado pela bailarina, do conto de Andersen!

Fico comovido lembrando-me dos brinquedos que minha mãe fazia. Imagino que Maria também deve ter feito brinquedos para o menino Jesus. Pena que não haja uma tela que represente esse momento sublime! Que brinquedos teria ela feito?

Natal é o tempo do acriançamento. É preciso dar brinquedos de presente. Sugiro que você pense nos brinquedos que você sabe ou pode fazer. As Bordadeiras de Brasília, enquanto papeiam, fazem lindos bordados! Que tal você começar a fazer bonecas de pano enquanto vê televisão? Eu mesmo tenho duas, feitas por uma pobre mulher do nordeste. Armar quebra-cabeças é um ótimo brinquedo e uma excelente terapia. Contrariamente ao nome, o quebra-cabeças deveria se chamar ‘conserta-cabeças’. Enquanto se arma o quebra-cabeças, a cabeça para de pensar aflições. E é um jeito de a gente estar junto com os filhos. Cada peça que se encaixa é uma felicidade! E, com isso, sem saber, as crianças vão desenvolvendo o pensamento lógico. E a felicidade de empinar pipas? A felicidade começa quanto a gente faz a pipa. Não me esqueço do que senti quando, menino de pés descalços, consegui por uma pipa lá em cima pela primeira vez! Fazer pipas é uma arte. Empinar pipas é um prazer! Que tal levar seus filhos a empinar pipas na manhã de Natal? Vá passear na feira hippie. Lá você encontrará brinquedos artesanais deliciosos e baratos: a Mancala, jogo africano; piões de todos os tipos; bibloquês. Confesso um fracasso: nunca consegui acertar o pino no buraco da bola!

Mas o melhor mesmo seria se você começasse a fazer brinquedos. Eu fazia brinquedos com caixinhas de fósforo, carretéis vazios de linha, bambús, talos de aboboreira (com eles se fazem divertidos instrumentos musicais!), rolhas, dobraduras de papel. Você poderá até fazer um rebanho de carneiros usando batatas e palitos.

Você achou tudo isso bobagem? Então, você se parece com a minha avó. Trate de se salvar. Repita comigo a reza da Adélia:

‘Meu Deus, me dá cinco anos, me cura de ser grande... ’




Rubem Alves
(Correio Popular, Caderno C, 17/12/2000.)


terça-feira, 12 de julho de 2011

NÃO DEIXE O AMOR PASSAR

Quando encontrar alguém e esse alguém fizer seu coração parar de funcionar por alguns segundos, preste atenção: pode ser a pessoa mais importante da sua vida.
Se os olhares se cruzarem e, neste momento,houver o mesmo brilho intenso entre eles, fique alerta: pode ser a pessoa que você está esperando desde o dia em que nasceu.
Se o toque dos lábios for intenso, se o beijo for apaixonante, e os olhos se encherem d’água neste momento, perceba: existe algo mágico entre vocês.
Se o primeiro e o último pensamento do seu dia for essa pessoa, se a vontade de ficar juntos chegar a apertar o coração, agradeça: Deus te mandou um presente: O Amor.

Por isso, preste atenção nos sinais: não deixe que as loucuras do dia-a-dia o deixem cego para a melhor coisa da vida: 

O AMOR.




Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Exigências da vida moderna




Dizem que todos os dias você deve comer uma maçã por causa do ferro.E uma banana pelo potássio.E também uma laranja pela vitamina C. Uma xícara de chá verde sem açúcar para prevenir a diabetes.Todos os dias deve-se tomar ao menos dois litros de água. E uriná-los, o que consome o dobro do tempo.Todos os dias deve-se tomar um Yakult pelos lactobacilos (que ninguém sabe bem o que é, mas que aos bilhões, ajudam a digestão). Cada dia uma Aspirina, previne infarto. Uma taça de vinho tinto também. Uma de vinho branco estabiliza o sistema nervoso. Um copo de cerveja, para... não lembro bem para o que, mas faz bem. O benefício adicional é que se você tomar tudo isso ao mesmo tempo e tiver um derrame, nem vai perceber.Todos os dias deve-se comer fibra. Muita, muitíssima fibra. Fibra suficiente para fazer um pulôver.Você deve fazer entre quatro e seis refeições leves diariamente. E nunca se esqueça de mastigar pelo menos cem vezes cada garfada. Só para comer, serão cerca de cinco horas do dia...E não esqueça de escovar os dentes depois de comer. Ou seja, você tem que escovar os dentes depois da maçã, da banana, da laranja, das seis refeições e enquanto tiver dentes, passar fio dental, massagear a gengiva, escovar a língua e bochechar com Plax. Melhor, inclusive, ampliar o banheiro e aproveitar para colocar um equipamento de som, porque entre a água, a fibra e os dentes, você vai passar ali várias horas por dia.Há que se dormir oito horas por noite e trabalhar outras oito por dia, mais as cinco comendo são vinte e uma.Sobram três, desde que você não pegue trânsito. As estatísticas comprovam que assistimos três horas de TV por dia. Menos você, porque todos os dias você vai caminhar ao menos meia hora (por experiência própria, após quinze minutos dê meia volta e comece a voltar, ou a meia hora vira uma).E você deve cuidar das amizades, porque são como uma planta: devem ser regadas diariamente, o que me faz pensar em quem vai cuidar delas quando eu estiver viajando.Deve-se estar bem informado também, lendo dois ou três jornais por dia para comparar as informações.Ah! E o sexo! Todos os dias, tomando o cuidado de não se cair na rotina. Há que ser criativo, inovador para renovar a sedução. Isso leva tempo - e nem estou falando de sexo tântrico.Também precisa sobrar tempo para varrer, passar, lavar roupa, pratos e espero que você não tenha um bichinho de estimação. Na minha conta são 29 horas por dia.A única solução que me ocorre é fazer várias dessas coisas ao mesmo tempo! Por exemplo, tomar banho frio com a boca aberta, assim você toma água e escova os dentes. Chame os amigos junto com os seus pais. Beba o vinho, coma a maçã e a banana junto com a sua mulher... na sua cama.Ainda bem que somos crescidinhos, senão ainda teria um Danoninho e se sobrarem 5 minutos, uma colherada de leite de magnésio.Agora tenho que ir.É o meio do dia, e depois da cerveja, do vinho e da maçã, tenho que ir ao banheiro.E já que vou, levo um jornal... Tchau!

Viva a vida com bom humor!!!



Luís Fernando Veríssimo

sábado, 28 de maio de 2011

Força de vontade - (fragmento).




    Recuou o copo de vinho que eu lhe oferecia; depois também não quis aceitar um cigarro. Não bebia, não fumava, não tinha nenhum vício. Tinha uma cara gorda e mole de padre, e falava com precisão sobre o custo da vida em São Paulo. 

     Contou-me por exemplo que seu pai, homem de 80 anos, que mora na Quarta Parada, vai toda semana comprar carne em Mogi das Cruzes, onde é mais barata e mais bem servida.
 
     - Lá em casa comemos boa carne todo dia -- disse ele com ênfase.
 
     Não, não era casado - morava com os pais, que sustentava com seu trabalho. "Aliás - me disse subitamente, com um brilho nos olhos e as mãos trêmulas como quem toma coragem para fazer uma confissão sensacional - aliás este foi o primeiro ideal que me propus a realizar na vida. E realizei. Agora estou realizando o último dos meus três ideais."


 (...)

     E então me explicou que seu sistema era este: para cumprir cada um de seus três ideais, pusera ele mesmo um obstáculo diante de cada um. Como tinha desde criança muita vontade de ir ao Rio, resolvera não o fazer enquanto não cumprisse seu ideal número 3 - isto é, enquanto não visitasse pelo menos um país estrangeiro. O mesmo fizera em relação aos outros dois ideais. Por um momento tive a impressão de que ia me contar qual tinha sido a promessa que fizera em relação aos outros dois ideais -- mas creio que achou que já se abrira demasiado comigo. Talvez o desanimasse minha cara meio sonolenta depois do vinho tinto do almoço, naquele dia quente. 

     Pouco depois ele seguiu, com o grupo de turistas, para visitar as quedas e ir ao lado argentino. Só o vi depois do jantar e, como eu estava muito bem disposto, me aproximei dele. Eu estava numa roda em que se bebia alegremente uma boa "caña" paraguaia e insisti para que viesse tomar um cálice: -- "Afinal você deve estar contente hoje, precisa comemorar. Você realizou o terceiro e último ideal de sua vida  - e em duplicata: visitou dois países estrangeiros!" 

     Embora ele recusasse o convite, sentei-me um momento a seu lado.
 
    
- Sim - disse ele.- Eu provei minha força de vontade: realizei tudo o que prometera a mim mesmo um dia. E foi duro: tive de passar muitas necessidades e me esforçar muito. Quando eu era rapazinho, não tinha força de vontade. Mas hoje tenho a prova de que qualquer homem pode ter muita força de vontade. É uma coisa formidável. 

     Voltei para a roda, onde se bebia e se contavam anedotas. Logo depois resolvemos todos sair para dar uma volta de carro. Convidei o homem da força de vontade - havia um lugar no carro. Ele não aceitou. Ficou ali no saguão do hotel - e quando voltei para apanhar minha lanterna, surpreendi a expressão de seu rosto: estava sério, triste e ao mesmo tempo com um ar tão aparvalhado e tão vazio como quem não tivesse coisa alguma a fazer na vida e acabasse de descobrir isto. 




 Rubem Braga 

sexta-feira, 27 de maio de 2011

O Livro da Solidão




Os senhores todos conhecem a pergunta famosa universalmente repetida: "Que livro escolheria para levar consigo, se tivesse de partir para uma ilha deserta...?"

Vêm os que acreditam em exemplos célebres e dizem naturalmente: "Uma história de Napoleão." Mas uma ilha deserta nem sempre é um exílio... Pode ser um passatempo...

Os que nunca tiveram tempo para fazer leituras grandes, pensam em obras de muitos volumes. É certo que numa ilha deserta é preciso encher o tempo... E lembram-se das Vidas de Plutarco, dos Ensaios de Montaigne, ou, se são mais cientistas que filósofos, da obra completa de Pasteur. Se são uma boa mescla de vida e sonho, pensam em toda a produção de Goethe, de Dostoievski, de Ibsen. Ou na Bíblia. Ou nas Mil e uma noites.

Pois eu creio que todos esses livros, embora esplêndidos, acabariam fatigando; e, se Deus me concedesse a mercê de morar numa ilha deserta (deserta, mas com relativo conforto, está claro — poltronas, chá, luz elétrica, ar condicionado) o que levava comigo era um Dicionário. Dicionário de qualquer língua, até com algumas folhas soltas; mas um Dicionário.

Não sei se muita gente haverá reparado nisso — mas o Dicionário é um dos livros mais poéticos, se não mesmo o mais poético dos livros. O Dicionário tem dentro de si o Universo completo.

Logo que uma noção humana toma forma de palavra — que é o que dá existência ás noções — vai habitar o Dicionário. As noções velhas vão ficando, com seus sestros de gente antiga, suas rugas, seus vestidos fora de moda; as noções novas vão chegando, com suas petulâncias, seus arrebiques, às vezes, sua rusticidade, sua grosseria. E tudo se vai arrumando direitinho, não pela ordem de chegada, como os candidatos a lugares nos ônibus, mas pela ordem alfabética, como nas listas de pessoas importantes, quando não se quer magoar ninguém...

O Dicionário é o mais democrático dos livros. Muito recomendável, portanto, na atualidade. Ali, o que governa é a disciplina das letras. Barão vem antes de conde, conde antes de duque, duque antes de rei. Sem falar que antes do rei também está o presidente.

O Dicionário responde a todas as curiosidades, e tem caminhos para todas as filosofias. Vemos as famílias de palavras, longas, acomodadas na sua semelhança, — e de repente os vizinhos tão diversos! Nem sempre elegantes, nem sempre decentes, — mas obedecendo á lei das letras, cabalística como a dos números...

O Dicionário explica a alma dos vocábulos: a sua hereditariedade e as suas mutações.

E as surpresas de palavras que nunca se tinham visto nem ouvido! Raridades, horrores, maravilhas...

Tudo isto num dicionário barato — porque os outros têm exemplos, frases que se podem decorar, para empregar nos artigos ou nas conversas eruditas, e assombrar os ouvintes e os leitores...

A minha pena é que não ensinem as crianças a amar o Dicionário. Ele contém todos os gêneros literários, pois cada palavra tem seu halo e seu destino — umas vão para aventuras, outras para viagens, outras para novelas, outras para poesia, umas para a história, outras para o teatro.

E como o bom uso das palavras e o bom uso do pensamento são uma coisa só e a mesma coisa, conhecer o sentido de cada uma é conduzir-se entre claridades, é construir mundos tendo como laboratório o Dicionário, onde jazem, catalogados, todos os necessários elementos.

Eu levaria o Dicionário para a ilha deserta. O tempo passaria docemente, enquanto eu passeasse por entre nomes conhecidos e desconhecidos, nomes, sementes e pensamentos e sementes das flores de retórica.

Poderia louvar melhor os amigos, e melhor perdoar os inimigos, porque o mecanismo da minha linguagem estaria mais ajustado nas suas molas complicadíssimas. E sobretudo, sabendo que germes pode conter uma palavra, cultivaria o silêncio, privilégio dos deuses, e ventura suprema dos homens.



Cecília Meireles


(SÃO PAULO, FOLHA DA MANHÃ, 11 DE JULHO DE 1948.)

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Bom dia, tristeza







Bom dia, tristeza
Que tarde, tristeza
Você veio hoje me ver
Já estava ficando
Até meio triste
De estar tanto tempo
Longe de você
Se sente comigo
Se chegue, tristeza
Aqui, nesta mesa de bar
Beba do meu copo
Me dê o seu ombro
Que é para eu chorar
Chorar de tristeza
Tristeza de amar

Vinicius de Morais





domingo, 22 de maio de 2011

A última crônica



A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever. A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: "assim eu quereria o meu último poema". Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.

Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.

Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês.

O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho - um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular. A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.

São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: "Parabéns pra você, parabéns pra você..." Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura - ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido - vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.

Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso."




sábado, 21 de maio de 2011

Recomeçar






Não importa onde você parou … 

em que momento da vida você cansou… 

o que importa é que sempre é possível e necessário“Recomeçar”. 

Recomeçar é dar uma nova chance a si mesmo… 

é renovar as esperanças na vida e o mais importante… 

acreditar em você de novo… 

Sofreu muito nesse período? 
Foi aprendizado. 

Chorou muito? Foi limpeza da alma. 

Ficou com raiva das pessoas?
 Foi para perdoá-las um dia. 

Tem tanta gente esperando apenas um sorriso seu para “chegar” perto de você. 


Recomeçar… 


Hoje é um bom dia para começar novos desafios. 

Onde você que chegar? 

Ir alto… sonhe alto… 
queira o melhor do melhor… 

pensando assim trazemos pra nós aquilo que desejamos… 


Se pensarmos pequeno coisas pequenas teremos …. 


Já se desejarmos fortemente o melhor e principalmente lutarmos pelo melhor, o melhor vai se instalar em nossa vida. 

“Porque sou do tamanho daquilo que vejo, e não do tamanho da minha altura.” 




sexta-feira, 20 de maio de 2011

Nua...


Quando estás vestida,
Ninguém imagina
Os mundos que escondes
Sob as tuas roupas.

Assim, quando é dia,
Não temos noção
Dos astros que luzem
No profundo céu.

Mas a noite é nua,
E, nua na noite,
Palpitam teus mundos
E os mundos da noite.

Brilham teus joelhos,
Brilha o teu umbigo,
Brilha toda a tua
Lira abdominal.

Teus exíguos
- Como na rijeza
Do tronco robusto
Dois frutos pequenos - Brilham.

Ah, teus seios!
Teus duros mamilos!
Teu dorso! Teus flancos!
Ah, tuas espáduas!

Se nua, teus olhos
Ficam nus também:
Teu olhar, mais longe,
Mais lento, mais líquido.

Então, dentro deles,
Bóio, nado, salto
Baixo num mergulho
Perpendicular.

Baixo até o mais fundo
De teu ser, lá onde
Me sorri tu'alma
Nua, nua, nua...

Manuel Bandeira




Autor(a) Helio Mosquera

domingo, 1 de maio de 2011

A alma do homem ganhou asas e afinal começa a voar... Voar para o arco-íris... para a luz da esperança...

O Último Discurso



Do filme: O Grande Ditador





Texto e filme de Charles Chaplin




Desculpe!Não é esse o meu ofício. 
Não pretendo governar ou conquistar quem quer que seja. 
Gostaria de ajudar - se possível -  judeus, o gentio ... negros ... brancos. Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo -  não para o seu infortúnio.
Por que havemos de odiar ou desprezar uns aos outros? 
Neste mundo há espaço para todos.  A terra, que é boa e rica, pode prover todas as nossas necessidades. O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma do homem ...  levantou no mundo as muralhas do ódio ...  e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios.
Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela.
A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. 
Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. 
Mais do que máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura.  Sem essas duas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido. 
A aviação e o rádio nos aproximam muito mais. A próxima natureza dessas coisas é um apelo eloqüente à bondade do homem ... um apelo à fraternidade universal ... à união de todos nós. Neste mesmo instante a minha voz chega a milhões de pessoas pelo mundo afora ... milhões de desesperados, homens, mulheres, criancinhas ... vítimas de um sistema que tortura seres humanos e encarcera inocentes.

Aos que me podem ouvir eu digo: "Não desespereis!" A desgraça que tem caído sobre nós não é mais do que o produto da cobiça em agonia ... da amargura de homens que temem o avanço do progresso humano. Os homens que odeiam desaparecerão, os ditadores sucumbem e o poder que do povo arrebataram há de retornar ao povo. 


 


E assim, enquanto morrem os homens,  a liberdade nunca perecerá. 

Soldados! Não vos entregueis a esses brutais ... que vos desprezam ... que vos escravizam ... que arregimentam as vossas vidas ... que ditam os vossos atos, as vossas idéias e os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação regrada, que vos tratam como um gado humano e que vos utilizam como carne para canhão! Não sois máquina! Homens é que sois! E com o amor da humanidade em vossas almas! Não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar ... os que não se fazem amar e os inumanos.
Soldados! Não batalheis pela escravidão! lutai pela liberdade!
No décimo sétimo capítulo de São Lucas é escrito que o Reino de Deus está dentro do homem - não de um só homem ou um grupo de homens, mas dos homens todos! Estás em vós! 

Vós, o povo, tendes o poder - o poder de criar máquinas.  O poder de criar felicidade! Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela ... de fazê-la uma aventura maravilhosa. 

Portanto - em nome da democracia - usemos desse poder, unamo-nos todos nós. Lutemos por um mundo novo ...um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho,  que dê futuro à mocidade e segurança à velhice.  
É pela promessa de tais coisas que desalmados têm subido ao poder. Mas, só mistificam! Não cumprem o que prometem. Jamais o cumprirão! Os ditadores liberam-se, porém escravizam o povo. Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e à prepotência. Lutemos por um mundo de razão, um mundo em que a ciência e o progresso conduzam à ventura de todos nós. 
Soldados, em nome da democracia, unamo-nos.  
Hannah, estás me ouvindo? Onde te encontres, levanta os olhos! Vês, Hannah? O sol vai rompendo as nuvens que se dispersam! Estamos saindo da treva para a luz! Vamos entrando num mundo novo - um mundo melhor, em que os homens estarão acima da cobiça, do ódio e da brutalidade. Ergues os olhos, Hannah!



 A alma do homem ganhou asas e afinal começa a voar... Voar para o arco-íris... para a luz da esperança...




Ergue os olhos, Hannah!
Ergue os olhos!




quarta-feira, 27 de abril de 2011

A descoberta do amor

 
“[...] Quando criança, e depois adolescente, fui precoce em muitas coisas. Em sentir um ambiente, por exemplo, em apreender a atmosfera íntima de uma pessoa. Por outro lado, longe de precoce, estava em incrível atraso em relação a outras coisas importantes. Continuo, aliás, atrasada em muitos terrenos. Nada posso fazer: parece que há em mim um lado infantil que não cresce jamais.

Até mais que treze anos, por exemplo, eu estava em atraso quanto ao que os americanos chamam de fatos da vida. Essa expressão se refere à relação profunda de amor entre um homem e uma mulher, da qual nascem os filhos. [...] Depois, com o decorrer de mais tempo, em vez de me sentir escandalizada pelo modo como uma mulher e um homem se unem, passei a achar esse modo de uma grande perfeição. E também de grande delicadeza. Já então eu me transformara numa mocinha alta, pensativa, rebelde, tudo misturado a bastante selvageria e muita timidez.

Antes de me reconciliar com o processo da vida, no entanto, sofri muito, o que poderia ter sido evitado se um adulto responsável se tivesse encarregado de me contar como era o amor. [...] Porque o mais surpreendente é que, mesmo depois de saber de tudo, o mistério continuou intacto. Embora eu saiba que de uma planta brota uma flor, continuo surpreendida com os caminhos secretos da natureza. E se continuo até hoje com pudor não é porque ache vergonhoso, é por pudor apenas feminino.

Pois juro que a vida é bonita.”


   Clarice Lispector

Extraído do livro Aprendendo a viver, Clarice Lispector. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2004.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

A espera


Atrás da pista tem um bar e atrás do bar tem um sofá. Estou sentada nesse sofá. Aguardo ansiosa por algo, olho as horas no celular, checo o e-mail pelo Iphone, reclamo com minha amiga "tá demorando". Ela me pergunta se é o show, se é a menina passar com a comida. O que é? Não sei. Mas tá demorando. Em cima do bar, no teto, tem um daqueles globos que sempre tem. Olho pro globo e penso que estou uma eternidade sentada naquele sofá. Mais de trinta anos? Descanso os cotovelos nos joelhos e me arrependo, enquanto todos querem ver e ser vistos, eu fico nessa posição feia de vaso sanitário. Minha amiga vai fumar. Eu me animo "já tenho pra onde ir". Eu não fumo, eu odeio cigarro, eu odeio atravessar a festa inteira pra chegar até lá fora, eu odeio a amizade instantânea das rodinhas de fumantes que não se conhecem, eu odeio festas em geral, eu odeio papos de festa, eu odeio conhecer gente que não tem nada a ver comigo, e sorrir para os papos mais furados do mundo. Mas eu já tenho pra onde ir. E vou. E ao chegar lá fora, continuo achando que está demorando. Sinto falta do sofá agora. Mas quando minha amiga acabar o cigarro, eu já terei novamente pra onde ir. E assim uma festa chata me lembra muito a vida. A eterna oscilação entre ir lá fora ver e voltar pro sofá, sempre só pra ter pra onde ir. Chegou agora um ex amor. Ele entra com sua esposa. Ele me abraça enquanto ela segue em frente sem olhar pra trás. Faz aí uns 3 ou 4 anos que não damos um abraço. A gente sempre fugia das festas pra fazer sacanagem no carro dele. Não sinto saudade. Passou, faz tempo, não sinto nada. Nada. Talvez só sinta mais claro o que eu já sentia antes. Antes de sair de casa. Antes de ficar indo do fumódromo pro sofá e vice-versa. Eu só sinto agora, com esse abraço que não me fez sentir nada, com mais clareza, o que eu já sentia antes e muito antes de antes. Eu sinto que está demorando. Eu olho de novo no celular. Eu posso ir ao banheiro e isso já é um lugar para ir. Me animo. Não, não me animo. Tudo me deprime. Eu ficar chupando a barriga pra dentro pra esconder que tenho um pouquinho de pança, eu ficar me equilibrando no salto, eu ficar fazendo minha cara de "não encosta em mim". Tudo me deprime. As pessoas falando de trabalho, as pessoas forçando falar qualquer absurdo só porque o óbvio seria falar de trabalho. E principalmente: o grupinho de moças muito altas e muito loiras que não trabalham mas estão lá porque estar nesses lugares é o trabalho delas. Tudo é tão chato mas eu fiz cabelo e maquiagem. Antes da meia noite não dá pra ir embora. Preciso me gastar um pouco pra não dormir tão antes de tudo dar errado. Eu sei, eu deveria beber. Mas pra quê? Pra achar essas pessoas legais? Pra suportar o insuportável? Sou cínica demais pra dar esse gostinho ao mundo. E eis que adentra à festa o rapaz que, não faz nem uma semana, me pedia que eu não fosse ainda, só mais um pouquinho, espera amanhecer, porque, depois, você sabe, dá tanto sono. De mãos dadas com a moça que vive dando entrevista dizendo que eles se comem mesmo, o tempo todo. E isso não me dói em nada. Foi só um moço muito bonito que durou uma semana. Mas ele também reforça meu pé inquieto batendo ritmadamente: será que demora? Não sei. Não, não demora mais. Olho pra porta e ele acabou de chegar. Eu fui na festa por causa dele. Então era isso, eu tava esperando o tal do moço que me convidou pra festa. E então ele fala comigo e encosta um pouco em mim e eu penso em ser muito honesta. Olha, fulano, eu acho tudo isso um saco, sabe? Eu odeio a cordialidade dos bichos. Todo mundo se elogia, fala de trabalho, conhece gente, faz piadinha ruim. Mas tá todo mundo pensando o que vai ter pra comer e também pra comer. Eu vim aqui porque, sei lá, desde que te vi na reunião e eram oito da noite e você estava muito cansado mas, mesmo assim, você estava muito cheiroso e falou coisas muito inteligentes, eu fiquei a fim de te beijar na boca. Então, dá pra pedir pra esse bando de amigo chato, que fica puxando seu saco, desaparecer do mapa? A menina com a perna gorda pode, por favor, nos deixar em paz? Você pode, por favor, parar de mexer no cabelo da minha amiga e parar de dar risadinha no ouvido dela e sumir daqui comigo? Não, ele não pode. Ele não é a resposta. Ah, Tati. Você deveria saber. Eles nunca são a resposta. Nunca foram. Que é que você quer? Por que você olha tanto pro celular? Existe alguém no mundo, nesse momento, que poderia te ligar agora e te deixar feliz? Não. Ninguém é a resposta. Nem o sofá, nem a festa, nem ficar em casa, nem a água com gás, nem olhar com nojo para o grupo de piriguetes vips que não prestam pra nada a não ser frequentar festas para sair em revistas e angariar empresários. Finalmente já tenho o que esperar: o carro. Finalmente já tenho o que fazer: ir embora. Na verdade a única coisa que estou sempre esperando e querendo é ir embora. De todos os lugares, de todas as pessoas. Eu não estou esperando nada a não ser o tempo todo sair de onde eu estou.


Fonte: http://tatibernardi.com.br/V2/textos.php?texto=405&titulo=A-espera

terça-feira, 19 de abril de 2011

Soneto de fidelidade


De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama


Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure



 














Composição : Vinicius de Moraes / Capiba